
Laerte Coutinho achava que seria musicista ou atriz de cinema ou teatro. Apesar de utilizar o desenho desde os nove anos para expressar sentimentos, não pensava em ter este tipo de arte como profissão. Até que o professor de música deu um conselho derradeiro: “Para de fazer música e vai desenhar, que é o que você faz”. E assim o fez.
De lá pra cá, Laerte, hoje com 68 anos, se tornou uma das principais cartunistas do Brasil. Em um papo comigo para o Set Guaíba, ela falou com leveza sobre os mais variados assuntos: transgeneridade, os Piratas do Tietê, autoimagem e até sobre morte.
“Tenho pensado muito no meu enterro. A situação de velório já é uma coisa resolvida na minha cabeça. Eu gostaria de ser enterrada num caixão de papelão e que no velório tivesse muitos lápis coloridos para as pessoas deixarem desenhos e frases – olha, nunca contei isso em público -. Depois vou ser cremada. Quero ir pro forno com essas mensagens todas. As cinzas pode jogar em qualquer lugar (risos). Gostaria de ser colocada na terra e virar parte de alguma planta. Acho uma coisa interessante”, disse.
Entrevistas com pessoas deste calibre se tornam verdadeiras aulas. Perguntei sobre como o trabalho dela foi afetado pelo processo de transição e ela me disse que não usa esse termo. “Não chamo de transição porque eu ainda não cheguei em nenhum lugar e nem acho que eu vá chegar. É um movimento dentro da expressão de gênero. Sou uma pessoa trans mas não estou exatamente chegando em algum lugar”, me explicou.
Foi a criatura que transformou o criador e não o contrário. Com o próprio personagem Hugo, Laerte se deu conta de que se preocupava com expressões de gênero. Foi o Hugo que avisou, ao começar a se travestir sem o menor constrangimento, sem o menor pretexto. Não era Hugo. Era Laerte.
“Aí eu soltei a franga e comecei a me travestir também e viver o que esse instinto estava me indicando. E tô vivendo até agora”
Ela vive um processo sem fim, sem saber onde vai ou onde quer chegar, em busca de uma expressão de gênero diferente da que tinha: “Não tenho muito como saber onde eu vou parar porque eu não vou parar. Só vou parar quando morrer”.
Vivíssima, Laerte inspirou o mais recente filme de Otto Guerra. A Cidade dos Piratas chegou ao circuito nacional no dia 31 de outubro.
A história mescla a jornada da artista e do diretor, que encarou a morte depois de ser diagnosticado com câncer. A animação é um abismo caótico entre ficção e realidade. Confira parte da entrevista com a Laerte Coutinho durante o Set Guaíba do dia 25 de outubro:
Camila Diesel: Como foi o processo para o filme? Houve necessidade de conversa para definirem o rumo da animação?
Laerte Coutinho: “A Cidade dos Piratas obedecia uma certa direção inicial, com argumento, roteiro e tudo. A gente se convenceu de que era melhor buscar outro sentido. O Otto sugeriu que a gente fizesse um trabalho tão livre quanto vinham sendo as minha tiras. São tiras sem roteiro tradicional”.
CD: Ele mesmo disse durante a entrevista que se alguém disser que não entendeu, tudo bem.
LC: “(risos) São narrativas que contêm humor também, mas não é o humor tradicional que fecha uma piada, que envolve uma compreensão mais ou menos ortodoxa do que está acontecendo. O que eu proponho nas tiras e o que Otto também propôs no roteiro do filme é uma leitura poética das coisas. É um discurso mais poético do que positivista.”
CD: Hoje já não faria mais sentido, pra ti, que se fizesse o filme como se havia previsto há anos?
LC: “Não sei direito se faria sentido ou não. Talvez fizesse sentido. Mas a gente achou que faria mais sentido buscar essa direção que afinal foi buscada. Eu também não trabalho mais há muitos anos com o gênero de historias que eu usava no tempo dos Piratas do Tietê. Então não sei. O Otto também tem demandas pessoais que tem a ver com as coisas que ele viveu, os problemas que ele enfrentou.”
CD: Já falamos sobre a questão de gênero. E não tem como não falar sobre o momento que vivemos. Me parece que as pessoas se sentem legitimadas a pensarem e falarem certas coisas. Essa é a tua visão também?
LC: “Esse pessoal que chegou ao poder agora é portador de uma mensagem muito clara de ódio e de destruição de um ambiente que existia, que era de crescimento, de aumento da diversidade. Era uma ambiente de florescimento, que não era pacífico o tempo todo, claro que não. Mas esta nova ordem governamental que se instalou tem o objetivo claro de destruir. Isso já foi inclusive dito com muita clareza pelo Bolsonaro: ‘Eu não vim construir nada. Meu negócio é destruir’. Então eu acho que nossa melhor atitude agora é suportar isso, superar e conseguir vencer esse poder de ódio que é um grande perigo.”
CD: A charge tem algum poder ou função de fazer as pessoas refletirem sobre esta situação? Ou acaba sendo bastante direcionado e quem consome a charge já pensa mais ou menos como o autor também?
LC: “Olha, eu achava que não, que o poder da charge não era muito grande, não. Mas recentemente eu li um texto antigo do Henfil em que ele mostra como cartoons e charges alteraram partes da vida prática e a importância que salas do governo davam para quando saia uma charge do Henfil ou pra quando saia uma coluna do Millôr (Fernandes). Ele falava que a gente não é tão impotente assim, não. Boa parte do que a gente faz é justamente pra dar força e alento para as pessoas que estão na luta como a gente. A gente não deve esquecer que tem influência sim. Temos o que dizer. Temos o que fazer. Mesmo em um espaço limitado em uma charge.”
CD: Mesmo em uma sociedade memetizada, em que, muitas vezes, é só a piada pela piada?
LC: “É que no espaço do cartoon e da charge também se usa muito a piada pela piada. O meme é uma linguagem nova, é uma possibilidade nova. E eu já vi memes horrorosos e idiotas, mas também já vi ideias muito boas. O meme é uma forma também de se fazer humor. De certa maneira, coloca a possibilidade fazer uma mensagem de humor com imagens para uma população muito grande também, né? São coisas do tempo que a gente tá vivendo. Cê pode resmungar, mas cê não pode voltar atrás.”
CD: E qual o teu papel neste momento louco que a gente vive?
LC: “Mais do que um papel ou uma missão eu tenho um trabalho que me dá tesão. É o que eu sei fazer, é o que eu sinto que posso fazer e bem. É o que eu sinto que ajuda também. Agora, eu sei que ajuda medindo pela régua da minha vida real. É o que eu faço, são as reuniões que eu vou, são os atos que eu vou, são os amigos que eu tenho, são os afetos que eu vivo… e o meu trabalho faz parte disso. Neste sentido, eu uso até uma palavra que eu não gosto muito que é a arte. É a minha arte (risos).”
CD: E pra fechar, a gente começou falando sobre a Cidade dos Piratas que fala sobre a tua história, tem um documentário no Netflix sobre a tua vida e tantas entrevistas… como é pra ti ver essas produções? Como tu te vê sendo contada pelo olhar do outro?
LC: “Eu fico nervosa (risos). Eu fico meio atrapalhada porque não é uma situação muito tranquila pra mim, não. Eu fico tensa, um pouco ansiosa com o modo como vão me ver. Eu também sou meio autocrítica. Tenho uma crítica em relação a mim mesma que eu acho que é exagerada e razoavelmente deformada. Então quando eu vejo que as pessoas também estão fazendo esse trabalho de me olhar eu fico ansiosa pelo que vão achar.”
CD: Mas de maneira geral, tu gosta?
LC: “Pior que gosto. (risos)”
