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Foto: Cacá Bernardes

As luzes se apagam e ela ainda está ali conversando e abraçando algumas pessoas da plateia. Rapidamente todos silenciam e passam a ouvir atentamente uma história casual que ela começa a contar para uma espectadora. Mal é possível perceber que o espetáculo já começara. Dava, assim, as primeiras pinceladas de que a peça nos transportaria para outra dimensão. Uma dimensão em que cada história contada falava um pouco de cada um. Era o “Eu de Você” que Denise Fraga me falava na entrevista, durante o Set Guaíba.

Denise Fraga fez a estreia nacional de “Eu de Você” no último final de semana no Theatro São Pedro, em Porto Alegre. A obra é livremente inspirada em narrativas reais. São histórias enviadas por pessoas comuns após anúncio nas redes sociais e jornais. Foram mais de 300 envios por pessoas que queriam ver a sua vida virar arte. “Quando você tá no seu drama e tem palavras que você colheu dos poetas… eu sinto que, se tem a cumplicidade dos poetas, a companhia dos poetas, de alguma maneira a arte livra a gente da mediocridade da vida. Ela embeleza os nossos dramas”, disse Denise na entrevista.

É comum ouvirmos que a arte imita a vida e que a vida imita a arte. No fim das contas, é tudo uma coisa só e isso nem é novidade. Mas a dor de sermos tomados pela rotina, de sermos engolidos pelo sistema, de termos nossos problemas banalizados, de vivermos relações tóxicas, de não conseguirmos ver o que está a um palmo do nosso nariz, ficou ainda mais aguda com tantas histórias reais. Quando a atriz me disse que está devolvendo as histórias “embaladas pela arte”, eu mal podia imaginar que essa devolução continha tanta maestria e tantos sentimentos entrelaçados. 

Deu pra chorar e deu pra rir. No meu caso, mais choro do que riso, admito. “Adoro esse terreno do meio. Eu acho esse terreno muito fértil. É muito precioso. Quando, ao mesmo tempo, você se emociona e ri você consegue olhar de fora para o seu drama. O humor faz você conseguir se distanciar e olhar a vida enquanto ela passa”, já previa Denise.

Além da atuação estonteante de Denise Fraga, “Eu de Você” traz um lado da atriz que, até então, eu desconhecia. Sozinha no palco, ela dança, canta, se movimenta, desce na plateia, interage com o público de uma maneira extremamente cativante – tudo isso acompanhada por três instrumentistas e uma equipe de som, imagem e luz de extrema qualidade. Pena que a peça agora parte para turnê pelo Brasil e, para quem perdeu, só resta torcer para que volte para a capital gaúcha. Se torcer funciona, até eu vou cruzar os dedos. Quero mesmo ver de novo.