Foto: Camila Diesel

Se eu tivesse que resumir em uma palavra o show de Tim Bernardes no Theatro São Pedro, na última quinta-feira, seria: contemplação. O público presente estava lá para apreciar todo o talento do músico paulistano. Música após música, a plateia degustou cada acorde ao violão (que também serviu de percussão), cada falsete, cada explosão precedida pela suavidade (e vice-versa), cada nota executada no piano, cada som que tirou da guitarra. O teatro lotado também conseguiu usufruir dos silêncios muito bem dosados pelo multi-instrumentista, que viu no teatro a possibilidade de realizar um show intimista, na acepção da palavra.

Você, caro leitor, ao seguir este texto até o final e ficar atento à quantidade de músicas novas do setlist, poderia presumir que a plateia ainda não sabia as letras a fundo e que, por isso, a interferência ao longo do espetáculo foi tímida. Mas o que eu vi foi que, mesmo em músicas já bastante conhecidas do público, como “Ela” (2017) e “Recomeçar” (2017), ou mesmo o bis que trouxe “Volta” (2016) e “Quis Mudar” (2017), os presentes estavam ali para absorver o máximo possível da performance. A cada encerramento de canção, Tim era aplaudido efusivamente, ovacionado e elogiado. “A gente te ama!”, disse um. “Maravilhoso!”, gritou outra. E no começo de cada nova música, o silêncio.

Estávamos diante de um Tim Bernardes muito solto, à vontade, carismático e receptivo. Durante as quase duas horas de apresentação, sozinho no palco alternando entre os instrumentos, conversou e brincou com a plateia, falou sobre algumas músicas e sobre o disco e refletiu sobre os caminhos que o levaram até onde está. Tive a mesma impressão quando o recebi no Set Guaíba, para uma entrevista na noite anterior. Tem um pouco mais de leveza. Talvez seja fruto da transição dos 26 aos 31. Talvez. Pura especulação de minha parte baseado na minha própria vivência.

Ou quem sabe esse trecho de uma fala dele explique um pouco também:

Tá, mas voltemos ao assunto deste texto!

“Quando eu entendi que ia lançar disco e ia voltar a fazer show, eu já estava ansioso pra tocar aqui neste teatro, que eu amo demais. Muito obrigado por estarem aqui!”, disse Tim logo que entrou no palco, às 21h10, para abrir a apresentação com “Nascer, viver, morrer” – que também abre o disco “Mil Coisas Invisíveis” (2022). Depois, seguindo o roteiro de outros shows que já fez pelo país, ele cantou “Fases” e “BB (Garupa de moto amarela)”.

O cenário era composto pelos instrumentos, dois grandes holofotes a suas costas e alguns outros poucos pontos de luz. O breu se fez em alguns momentos. Em outros, a luz focava mais na plateia do que no músico. Houve também passagens mais iluminadas e uma abertura de telão verde ao fundo quando cantou “Meus 26”, que ficou branco em “Leve”.

Entre as músicas que não constam em seus discos, pudemos ouvir “Prudência” – que foi composta pelo artista para Maria Bethânia no álbum Noturno (2021) – e “Soluços” de Jards Macalé (1969).

Ao ouvir alguns pedidos da plateia ao longo da performance como “toca Não!” ou “Volta!”, Tim pedia: “me lembra depois!”. E foi com pedidos efusivos que ele encerrou a apresentação no bis, com “Volta” (2016), “Going-to-the-Sun Road” (Fleet Foxes, 2020) e “Quis mudar” (2017) em medley com “Que nega é essa?” (Jorge Ben Jor, 1972).

Ao longo de sua performance com canções intensas, existencialistas e emocionais, que oscilam entre o sofrimento e a beleza de estar vivo, Tim Bernardes nos fez ter uma ideia real das “mil coisas invisíveis” sobre as quais ele fala no disco. Depois do último acorde, agradeceu, levantou, se curvou em agradecimento e partiu. Não tenho dúvidas de que o público foi embora com a certeza de que estava diante de um dos maiores músicos brasileiros dos últimos anos.

Leia mais: Entrevista com Tim Bernardes para o Set Guaíba

Confira as músicas executadas, na ordem:
Nascer, viver, morrer (Tim Bernardes, 2022)
Fases (Tim Bernardes, 2022)
BB (Garupa de moto amarela) (Tim Bernardes, 2022)
Mesmo se você não vê (Tim Bernardes, 2022)
Mistificar (Tim Bernardes, 2022)
Falta (Tim Bernardes, 2022)
Talvez (Tim Bernardes, 2017)
Ela (Tim Bernardes, 2017)
Prudência (Tim Bernardes, 2021)
Só nós dois (Tim Bernardes, 2019)
Beleza eterna (Tim Bernardes, 2022)
Soluços (Jards Macalé, 1969)
Olha (Tim Bernardes, 2022)
Nada / Tudo (Tim Bernardes, 2019)
Última vez (Tim Bernardes, 2022)
Realmente lindo (Tim Bernardes, 2018)
Meus 26 (Tim Bernardes, 2022)
Esse ar (Tim Bernardes, 2022)
Velha amiga (Tim Bernardes, 2022)
A balada de Tim Bernardes (Tim Bernardes, 2022)
Leve (Tim Bernardes, 2022)
A história mais antiga do mundo (Tim Bernardes, 2017)
Recomeçar (Tim Bernardes, 2017)

Bis:
Volta (Tim Bernardes, 2016)
Going-to-the-Sun Road (Fleet Foxes, 2020)
Quis mudar (Tim Bernardes, 2017)
Que nega é essa? (Jorge Ben Jor, 1972)