Quem tentou barrar o filme Mignonnes é mal intencionado, não entendeu ou não assistiu. Fica muito clara a crítica à sexualização de meninas. Aprovado por autoridades de proteção à criança do governo francês, o filme foi feito, inclusive, baseado em entrevistas com crianças.

A Folha de S. Paulo publicou que o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos pediu a suspensão do filme pela Netflix. Lançado em 9 de setembro, o filme vem sendo acusado por autoridades, entre elas Damares Alves, de sexualizar crianças.

A arte cumpre, novamente, seu papel. Justamente porque expõe um problema e causa certo desconforto. Eu fiquei desconfortável ao ver a sexualização precoce nessas meninas, vítimas das redes sociais, da publicidade e de todo um sistema falido, opressor e parasita. Eu vi nelas um claro pedido de socorro. “Queria que os adultos passassem 96 minutos vendo o mundo pelos olhos de uma menina de 11 anos, que vive 24 horas por dia. Essas cenas podem ser difíceis de assistir, mas não são menos verdadeiras como resultado”, escreveu a diretora Maïmouna Doucouré, no Washington Post.

É bem compreensível – e triste – que quem consegue naturalizar a hiperssexualização de meninas de 11 anos, não consegue entender que o filme não faz apologia e traz o contraste entre a tradição dogmática e as mudanças culturais em descompasso social. A diretora expõe e contextualiza a exploração do corpo infantil, ao mesmo tempo em que aponta que grande parte do problema é uma cultura secular de submissão. Ela devolve para a sociedade um retrato de algo difícil de ver. É mesmo difícil olhar pra dentro.

Não dá pra julgar um livro pela capa, nem um filme por um cartaz. Se a escolha da imagem ilustrativa foi infeliz, mais ainda é a tentativa de censura ou de boicote de uma crítica tão importante. Assistam.