rubel
Foto: Rebecca Moriá

No início do ano, Rubel dividiu o palco com Gal Costa. O público presente na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, assistiu extasiado aos dois cantando Coração Vagabundo e Baby. “Costumo dizer que isso é um sonho maior do que os que eu tive coragem de sonhar”, disse Rubel em entrevista ao Set Guaíba.

“A Gal, pra mim, é uma das maiores cantoras do mundo. Ela estava presente na bossa nova, estava presente na Tropicália, na MPB… era a cantora preferida do Dorival Caymmi, do Tom Jobim, do Caetano Veloso. Então, assim… não é só uma voz incrível, angelical. É uma figura muito importante na formação da nossa música. Então, pra mim, é uma honra inacreditável”, revelou o músico.

O registro do encontro de gerações da MPB foi publicado pela Biscoito Fino nas plataformas digitais. Ao violão, Rubel canta, distribui sorrisos, olhares incrédulos e encaixa sua voz perfeitamente na de Gal. O clima é de descontração, como se fossem velhos conhecidos. Ambos muito à vontade e visivelmente em um momento de diversão.

No texto de divulgação, a cantora diz o que a imagem confirma. “A gravação captou muito bem o clima amoroso daquela noite na Fundição Progresso, com plateia lotada de gente jovem e animadíssima. Rubel entrou no meu show pra cantar Baby comigo. Foi nosso primeiro encontro artístico. Fiquei contente com o resultado do clipe e de poder trabalhar com ele, um compositor novo e jovem, construindo uma carreira muito coerente na música popular brasileira”, conta.

Sem tentar esconder a importância do encontro, Rubel ainda conversou comigo sobre os impactos desse show em sua trajetória, a tradicional e a nova geração da MPB, a responsabilidade política da arte e o próximo disco. Confira!

Camila: Às vezes é difícil descrever exatamente o que cada pessoa agrega na nossa vida, mas as experiências vão mudando a gente. Tem alguma coisa que tu possa dizer que mudou em ti depois dessa experiência com a Gal Costa?

Rubel: Eu tive a sensação de que foi um passo adiante, um passo de maturidade. Nem tanto na questão de sucesso ou de fama, mas uma questão minha mesmo, na minha relação com a música, de me sentir pronto para embarcar em projetos mais ousados e acreditar no meu potencial como cantor e como compositor. De acreditar que eu estou pronto pra, de alguma forma, poder honrar esse legado da música brasileira, de trabalhar e poder me colocar como uma pessoa que dá seguimento a isso. Eu tive essa percepção de que é um passo de maturidade maior. Agora me sinto pronto pra realmente fazer um bom disco e dar sequência a minha carreira.

Camila: Sendo de uma geração nova da Música Popular Brasileira, como você enxerga a musica feita no Brasil? Claro que são muitos estilos e muitas nuances, mas como tu entende esse universo?

Rubel: Eu acho que a gente está num momento privilegiado de muitos artistas novos surgindo. Acho que a internet é um dos fatores que está permitindo que se abra um leque maior de compositores e cantores. A gente tem uma predominância muito grande do pop, do funk e do sertanejo no mainstream, na música popular – no sentido de popularidade mesmo, que não acho necessariamente ruim. E tem uma nova geração que se inspira muito na geração tradicional da MPB, da qual acredito que eu faça parte. Tem eu, o Tim BernardesO Terno, o CíceroAna Vitória de alguma forma… acho que o hip hop tem um pouco de híbrido nesse espaço de uma nova MPB, com o Emicida. Então, eu acredito que a gente está, finalmente, depois de muitos anos, começando a ter o que pode ser visto como uma nova geração. Teve um hiato muito grande da MPB. Teve isoladamente o Los Hermanos. E eu acho que agora a gente está com um número considerável de compositores e cantores que fazem uma música que se aproxima da MPB tradicional. A gente tem que estudar muito ainda para honrar esse título de nova MPB, mas tem músicos muito talentosos e eu fico muito feliz de estar vivo e estar fazendo música nesse momento. Eu acho que está sendo muito frutífero e os próximos 10, 15 anos vão ser um belo retrato disso. Vão ser anos muito importantes pra música brasileira, pro hip hop, pro funk e pro sertanejo. A música brasileira está florescendo de uma forma geral.

Camila: As circunstâncias da época em que a MPB começou a surgir, na época da Tropicália, eram muito mais extremas aqui no Brasil. Esses grandes nomes da música brasileira, em razão da censura ou da condição do país, lá atrás falavam muito sobre política. Qual a importância de um artista dessa nova geração se posicionar? É necessário?

Rubel: É extremamente importante. Eu não gosto da ideia de preciso ou não, necessário ou não. A arte é um espaço em que cada um faz o que quer e a liberdade é a tônica principal pra mim. É fundamental, é muito importante se posicionar. Eu sinto muita falta dessa nova geração e no meu trabalho, inclusive, da gente falar de política direta ou indiretamente. Eu acho que essa nova geração é muito focada em canções de amor, é extremamente romântica. Isso não dá conta ainda de abarcar a realidade do nosso país, como a Tropicália fez há 50 anos. Mas acho que esse vai ser um movimento natural. Como a gente tá tendo um retrocesso muito considerável em termos políticos e na direção de um conservadorismo que, de alguma forma, tem um paralelo com os anos 60, eu acho que naturalmente a música vai ser mais politizada nos próximos anos, vai ser mais engajada.

Camila: O que podemos, então, esperar do teu novo disco?

Rubel: Tem muito a ver com o que a gente tá falando agora. É menos romântico e fala mais sobre o Brasil, fala mais do outro do que de mim. Provavelmente, vai ter um pouco mais de teor político e muito inspirado na música brasileira dos anos 60 e 70.