
Multi-instrumentista, cantor, compositor, escritor e artista visual, Arnaldo Baptista comemora nesta segunda-feira 72 anos de idade. Em entrevista ao Set Guaíba, perguntei se caberia mais algum item na lista de descrições: “Cabe também uma outra: eu sou alegre! (risos)”.
O ex-Mutante é uma rara figura lendária do rock nacional. Foi parte fundamental de um grupo de jovens que explodiu mentes através dos ouvidos e fez nascer uma revolução musical. Me atrevo a dizer que talvez sejam a maior banda que o Brasil já viu. Atravessando gerações desde os anos 60, a música d’Os Mutantes chegou a ser chamada de genial por Kurt Cobain – em um bilhete endereçado ao próprio Arnaldo – e continua influenciando bandas como O Terno – da novíssima geração.
Arnaldo foi intensamente afetado pela dissolução do grupo e das relações com Rita Lee e seu irmão Sérgio Dias. A arte foi determinante para que hoje ele tenha se tornado esse cara alegre, como ele mesmo se descreve. Alegre e criativo, mesmo em épocas de isolamento social provocado pela pandemia da Covid-19.
“Tô me sentindo como se estivesse recomeçando o que eu não comecei ainda. Tá sendo ótimo que tô tendo inspiração suficiente pra pintar e fazer música. Estou entrando nessa de descobrir-me em função das minhas qualidades”, confidenciou.
Fazer aniversário deu um novo brilho ao período. “De uma certa forma alegrou a pandemia. Estou contente”, disse. Para comemorar a 72ª primavera, fãs e músicos foram convidados a gravar vídeos de versões de seus álbuns solo. A ideia foi da esposa Maria Lucia, que contou com apoio do ex-Cachorro Grande Rod Krieger. “Ele tem sido uma mão de obra bem-vinda em tudo o que eu faço. E eu queria aproveitar pra agradecer a todas as pessoas que têm me ajudado, que eu não tenha agradecido totalmente. São pessoas que me fazem bem e que eu tenho que agradecer bem”, disse Arnaldo.
Nesta primeira convocatória, estão sendo homenageados os álbuns Singing Alone, Elo Perdido e Elo Mais Que Perdido, Faremos Uma Noitada Excelente, Let it Bed e Disco Voador. Um dos artistas que participou foi John Ulhoa, do Pato Fu.
O icônico Loki? ganhará uma edição especial em uma segunda temporada de homenagens a esse respeitadíssimo artista. O álbum foi gravado em 1974, num momento de bastante dificuldades na vida pessoal de Arnaldo. Do período nebuloso, nasceu um álbum incrível que é considerado, até hoje, a grande obra prima do ex-Mutante. “Quando gravei Loki? não tinha a menor esperança do que iria acontecer com ele. Foi uma coisa inesperada, não esperava essa valorização”, comemorou.
Perguntei qual a diferença entre o Arnaldo de 74 e o de hoje: “Naquela época eu não tinha um amor permanente, que tô tendo agora. A diferença também é que eu tenho mais equipamentos. Quando gravei Loki? eu não tinha o que eu tenho agora”. O acesso a instrumentos, aliás, tem facilitado os processos. “Na época em que comecei, um contrabaixo Gibson… precisava ir pros EUA pra comprar, ou pra Inglaterra. Agora aqui na esquina tem Gibson, Fender, e outras marcas… Só que tem essa coisa de preço, que é muito caro”, relatou.
Se houvesse alguma possibilidade de manter-se vivo eternamente, ou pelo menos por mais 72 anos, Arnaldo Baptista não mediria esforços. Pode ser através de regravações de suas músicas ou mesmo congelando o próprio corpo para poder acordar na posteridade. “Às vezes eu fico cansado… Eu penso que tenho 72 anos e tem gente que tem 144 ou o dobro (risos). Mas eu vou levando… Se ficar muito apertado, eu me criogenizo e passo para a eternidade, igual o Timothy Leary fez. Não que muita gente vá fazer isso. Mas se eu ficar apertado em algum sentido de saúde – o que não tá acontecendo – eu me criogenizo. É bom que eu acordo daqui a anos. Sem doença”, imaginou o ilustre aniversariante.
