
“O que seria investigar uma charge? Levantar um papel e olhar do outro lado pra ver o que tem? Não sei. É um equívoco”, foi o que me disse o chargista Renato Aroeira em entrevista para o Set Guaíba dessa quarta-feira. Ele é alvo do ministro da Justiça, André Luiz Mendonça, que pediu à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República a abertura de um inquérito para investigar uma charge de sua autoria. No desenho, o presidente Jair Bolsonaro aparece pichando uma cruz vermelha de hospital e a transformando em um símbolo nazista. A charge, como explicou Aroeira, é uma referência ao incentivo de Bolsonaro para que as pessoas invadam hospitais e gravem leitos de UTI. “Essa ideia de invadir hospital me encheu de horror e indignação”, complementou.
Não é a primeira vez que o artista é processado em razão de suas charges com o mesmo teor. O próprio Bolsonaro, enquanto candidato, perdeu um processo contra Aroeira. Ainda assim, tornar-se “inimigo público” o surpreendeu. “Já fui processado por pessoas, coisa que acho até natural. Mas o Ministério da Justiça, a pedido da Secretaria de Comunicação, acionando o Procurador-Geral da República? É brincadeira… Parece despropositado”, lamentou.
A possível punição a Aroeira sensibilizou chargistas do Brasil inteiro. Cerca de cem artistas redesenharam a charge, sob a mesma ideia e a mesma ótica, cada um no seu estilo. Segundo ele, essa reação inteligente, rápida e criativa reduz o processo à dimensão de ridículo. “O (Augusto) Aras vai autorizar um processo que vai ter que incluir cem chargistas?”, questionou, dizendo ainda que o pedido de investigação foi um verdadeiro tiro no pé.

Aroeira comparou a repercussão a um golpe de judô, em que “você faz um pequeno movimento para usar a força que o adversário usou contra ele mesmo”. A charge correu o mundo. Rendeu compartilhamentos nas redes sociais aos montes e recebeu destaque no The New York Times. Para Aroeira, qualquer tipo de tentativa de censura a um chargista faz com que o episódio tome proporções muito maiores do que a intenção. “Um cartoon meu levou esse negócio a um patamar que fez com que o planeta inteiro percebesse que o Bolsonaro mandou invadir hospitais. Olha só. Isso é uma coisa importante”, disse.
Em tempos de ódio escancarado, ameaças sólidas na internet chegam a todo momento ao cartunista. Neste caso em específico, por enquanto, o tribunal online o poupou. “Mas vou ser honesto com você… ter o Ministério da Justiça te caçando é uma ameaça bastante grande. Me sinto muito intimidado, mas não a ponto de parar de fazer o que eu faço, que é desenhar esse pessoal”, revelou.
O teor das denúncias em seus traços destoa da fala tranquila e generosa. Aroeira finalizou a entrevista dizendo que é calmo apenas por fora. As indignações com injustiças e governos totalitários transbordam de sua mente em forma de desenhos. Esse tipo de pauta é recorrente entre pessoas de esquerda, então seriam chargistas necessariamente de esquerda? Eis a resposta de Aroeira: “A maior parte dos que eu conheço é de humanistas. Não vou dizer que sejam exatamente de esquerda. São chargistas que são críticos à injustiça. Quem é crítico à injustiça, acaba sendo humanista, e quem é humanista acaba resvalando pro lado esquerdo da vida”.
