Chico César por José Holanda
Foto: José Holanda / Divulgação

Em casa, com dois cães e um gato, o músico Chico César cumpre orientações de isolamento social em meio à pandemia imerso em suas composições, gravações e pensamentos por um mundo melhor com mais amor. Apesar de se dizer perplexo com os discursos nada alinhados de autoridades políticas e médicas sobre a melhor forma de combater o coronavírus, o compositor paraibano é otimista e vê no afeto a solução para uma sociedade que precisa repensar seus hábitos de consumo.

Sobre-Humanos, seu lançamento mais recente, fala sobre seu sentimento de orfandade em relação ao Estado ao mesmo tempo em que celebra o afeto que une as pessoas através da música. Gravada em parceria com outros artistas – cada um em seu próprio espaço – o single é acompanhado por um clipe em que Chico aparece em meio às árvores de sua casa, lembrando que a vida é uma só.

“Por mais que estejamos longe, nós nos amamos e demonstramos esse amor através da música. Quando nos encontrarmos, vai ser uma festa, mas mesmo à distância podemos celebrar esse afeto”, disse ele ao programa Set Guaíba, da Rádio Guaíba.

Clausura não é sinônimo de improdutividade para Chico. Já foram cerca de 40 composições nestes dias reclusos. Nem todas elas com relação ao período vivido, mas os últimos três lançamentos sim. Na música Se Essa Praga Morresse, lançada em abril, faz uma porção de perguntas retóricas. “Será que é mau desejar o mal ao mal / Pra haver evolução? / Será que o tal do tão propagado caos / Vai causar iluminação? / Será será que aqui permanecerá / Hora extra e serão?”.

É um chamado para repensar as formas de consumo e de produção e distribuição de riquezas. “Precisamos consumir, menos, consumir melhor, consumir mais coletivamente. Provavelmente esse vírus tem a ver com o modo de produção de riqueza e a relação que a gente tem com a natureza, que é uma relação predatória no pior sentido. É muito desrespeitosa a relação que o homem ocidental tem com a natureza. Talvez seja um momento da gente ouvir mais os povos que estão ligados a ela”, propôs o compositor.

Para Chico, desrespeitosa também é a forma como tem se tratado os números acumulados de vítimas pelo Brasil em razão da COVID-19. Em Inumeráveis, o poema musicado de Bráulio Bessa dá nome a quem morreu, com dados do memorial de mesmo nome. O refrão “se números frios não tocam a gente, espero que nomes consigam tocar” mostra, mais uma vez, que a arte segue vigilante. Ainda assim, o músico alerta: “não podemos atribuir à arte papéis que são do parlamento, da educação, da saúde… o papel da arte é a subjetividade”.

E talvez seja da arte a função de propagar o amor, já tão explorado e apropriado pelo capitalismo e pelas instituições, através do afeto. “Talvez afetos sejam mais plurais e mais libertários do que uma ideia padronizada de amor. Eu vejo essa potência no amor. Eu vivo essa potência. Um amor subversivo, que não está nos filmes de Hollywood. Precisamos praticar o amor como um ato de negação das ideias deletérias que temos sobre o amor”, finalizou o músico.