O show de Elza Soares, nesse domingo no auditório Araújo Vianna, foi um dos momentos que mais me tocaram nesses três primeiros meses de 2020. Elza mal consegue manter-se em pé e mesmo assim o fez – nos braços de sua banda – ao final da apresentação de pouco mais de uma hora e meia. Ovacionada, aplaudida e exaltada, Elza marejou olhos, arrepiou peles e aqueceu corações. Emocionou do início ao fim.
A idade avançada não a permite fazer muitos movimentos e debilita sua voz. Sentada, quase como em um altar, tinha os músicos a sua frente. Apoiada por seis artistas – de qualidade surpreendente – Elza Soares cantou. Há três meses de completar 90 anos, clamou: “Me deixem cantar! Me deixem cantar até o fim! Me deixem cantar!”.
É o mínimo que pode querer uma artista do cacife de Elza Soares. É o mínimo que pode querer um ser que há tanto tempo brada por um mundo melhor, ou pelo menos um Brasil menos injusto. É o mínimo que pode querer uma pessoa injustiçada em sua mocidade e julgada por suas atitudes e aparência. É só o que pede a mulher que lidou com a morte por inúmeras vezes e que se manteve longe dela. É apenas esse o pedido da mulher do milênio, responsável por um acervo musical inquestionável. A mulher do fim do mundo quer cantar.
Elza quer seguir na atividade até o fim. Assim como sua contemporânea Nathalia Timberg, que aos 90 anos, viaja muito e realiza turnê de um monólogo. Na semana passada ouvi um repórter perguntando a ela: “por que não parar?”. Ela disse que enquanto tiver lucidez seguirá fazendo o que sabe, o que ama, o que faz parte de sua existência.

A mim, durante entrevista ao Set Guaíba, Nathália confidenciou que ainda tem muitos caminhos dentro da dramaturgia para seguir. “Eu gosto muito de me sentir alicerçada pelo que aconteceu no mundo, para poder entender o que estou vivendo. Talvez me ajude a perceber no horizonte alguma coisa, desbravar, conhecer o desconhecido. Por esse caminho, você não tem limites”, disse.
Em 84 anos de carreira, houve períodos em que a atriz questionou sua atuação no teatro enquanto pessoa social. Diante disso, um grande diretor aconselhou: “Nathalia, esquece! Quando você atua sobre a sensibilidade e a inteligência de um povo você faz mais que qualquer panfleto”.
Na última semana, duas nonagenárias me fizeram voltar pra dentro. Comecei a segunda-feira com uma outra perspectiva, com outro olhar sobre o que é viver e desempenhar um papel no mundo. Tem muita gente cansada, mas eu não vou sucumbir. Eu também quero cantar até o fim. Deixem Elzas e Nathalias cantarem.
