
10h da manhã de um sábado. Janela aberta, brisa, claridade. Mate compartilhado. Documentário sobre a história da música nacional na televisão. Ele canta “tem dias que a gente se sente..” e eu continuo “um pouco talvez menos gente..”, mas ele segue “como quem partiu ou morreu”. Misturamos Chico com Raul. Tudo bem? Tudo bem! Dois compositores geniais.
Ele não conhece As Profecias do Raul Seixas. Canto. Raul gênio! Na minha voz nem tanto. Youtube salva. Já nos primeiros acordes, viajo. No banco de trás do Volkswagen Apollo. Pai e mãe na frente, Pati e Lipe comigo atrás. Fita K7 do Raul.
O cenário da capa – com aquelas velas e o barbudo de preto – me era estranho no auge dos meus cinco anos. Judas me dava medo. Não entendia Rock das Aranhas. Muito menos Metrô Linha 743. Tente Outra vez e Maluco Beleza eram, talvez, as mais palatáveis. E As Profecias eu só compreendia a primeira estrofe. Imaginava um quarto antigo com gotas de chuva na vidraça.
O Apollo foi moeda de troca em uma operação financeira dos meus pais. Ficou pouco tempo na família. Me lembro do cheiro de novo. O interior claro. A textura dos bancos, o carpete e o estofado. Com cinco anos, achava um luxo. A fita do Raul, incansável, seguiu tocando no nosso Gol quadrado cor creme. E hoje, no compartilhamento matinal do mate, soube que luxuosa é a recordação. Que luxo ter como referências de infância Rauls e Chicos. E Adonirans, Cássias, Elis, Lupis…

Republicou isso em REBLOGADOR.
CurtirCurtir