A Vida Invisível, dirigido por Karim Aïnouz, será o filme brasileiro que vai concorrer a uma vaga entre os cinco indicados ao Oscar de Melhor Longa-Metragem Internacional pela Academy of Motion Picture Arts and Sciences. Agora, falta apenas o anúncio dos finalistas, que acontece no dia 13 de janeiro, em Los Angeles. A cerimônia do Oscar está marcada para o dia 9 de fevereiro. A última vez que o Brasil emplacou uma indicação foi em 1999, com o filme Central do Brasil, de Walter Salles.
O filme estreia no Brasil em 31 de outubro, mas já foi destaque no Festival de Cannes, na França em maio. Karim falou comigo sobre a premiação, em entrevista para o Set Guaíba. “Foi bonito estar dividindo as premiações junto com Bacurau do Juliano (Dornelles) e do Kleber (Mendonça Filho). Então eu acho que tem uma coisa de celebrar uma geração que tá fazendo cinema de uma maneira muito bonita em um dos festivais mais importantes do mundo”, disse.
O longa, coproduzido pelo Canal Brasil, fala da invisibilidade dos mais variados tipos de violência sofridos por mulheres. A adaptação do romance escrito por Marta Batalha, que se passa na década de 50, tem inspiração nas vidas da mãe e da avó do diretor. “É uma obra que vem contaminada com muito da minha vida pessoal, o que eu acho que talvez seja a magia do cinema”, contou Karim, que confidenciou que, pelo fato de todos os filmes que dirigiu terem muito de sua experiência pessoal, entende que precisa redobrar o cuidado para que esta transcendência entre a arte, a ficção e a realidade continue sendo relevante para o público e que consiga com ele dialogar.
A cinematografia brasileira ultrapassa 160 filmes por ano, mas a bilheteria não é alta como acontece com produções americanas como Vingadores, que estreou com ocupação de 80% das salas de cinema. Para o diretor, nesta conjuntura, nem mesmo a vasta e impressionante mitologia e a rica cultura do país, são suficientes para atrair grande público. “É muito difícil a gente gostar de acarajé se a gente não comer acarajé. Se não tiver banca que vende, é muito difícil se acostumar com o gosto. Então… é muito perigoso quando a gente não tem uma política de defesa do produto nacional que permite que situações assim aconteçam”, lamentou Karim.
Em maio, antes mesmo de os ânimos se acirrarem em relação a Ancine e as críticas do presidente Jair Bolsonaro ao cinema nacional insuflarem o debate, Karim já falava sobre a importância do reconhecimento da produção brasileira em um dos mais importantes festivais do mundo.
“Esses prêmios são uma confirmação de um time que está ganhando. É importante entender que a gente não ganhou esse prêmio por um filme que a gente fez um ano atrás. A gente ganhou esse prêmio por uma carreira que a gente constrói há 15 anos. Essa carreira só foi possível por conta do apoio que a gente tinha das políticas culturais desenvolvidas nos últimos anos. Se tem algo que a gente tem que aprender com esse prêmio, é que ele deve, de fato, estimular a continuidade de políticas culturais que vêm dando muito certo. A gente vem sendo questionado em vários lugares. Tem quase uma certa demonização dos trabalhadores da cultura. Se a gente está ganhando, não pode trocar o time inteiramente. É importante a gente entender porque está ganhando e como continuar ganhando mais daqui pra frente”, desabafou.
Será que esta obra – premiada em Cannes e com possível indicação ao Oscar – passaria pelos “filtros culturais” do governo atual? Ambientado na década de 1940, A Vida Invisível conta a história de Eurídice e sua irmã Guida, que, separadas, passam suas vidas tentando se reencontrar. Uma delas foge com o namorado, engravida, tenta voltar para casa, mas é expulsa de forma cruel pelo pai – um português conservador. A outra enfrenta a sociedade machista para se tornar uma musicista. Ou seja, uma verdadeira crítica ao sistema patriarcal.
