
A frase “não é um fim, é um recomeço” pode ser clichê. Mas é exatamente isso que significa, pelo menos para Beto Bruno, o final da banda gaúcha de enorme destaque no cenário nacional. A Cachorro Grande está em turnê de despedida, lotando as casas de shows com os fãs mais fervorosos e incrédulos com o adeus. O vocalista de voz rasgada e trejeitos inconfundíveis conversou comigo sobre os últimos dias da banda durante o Set Guaíba. Ele falou sobre a trajetória, sobre arrependimentos e sobre a maior saudade que sente do Rio Grande do Sul: maionese sem cenoura.
Em vinte anos de carreira, o motor da banda foi o tesão pela música, que, na opinião de Beto, ruiu com o passar do tempo. “No último álbum, simplesmente, a banda nem se viu no estúdio direito. Foi quando eu perdi o tesão de tocar com esses caras. E a mesma coisa da parte deles. Ninguém mais estava a fim de gravar um disco ou fazer música nova. Gradualmente, ficou bem claro”, disse o vocalista visivelmente emocionado.
O desgaste entre o quinteto não é novidade e ficou ainda mais evidente com a saída do guitarrista Marcelo Gross, em maio do ano passado. Com a decisão de encerrar as atividades da banda, a turnê de despedida veio bem a calhar. O sentimento, que era de tristeza pela falta de perspectiva, foi substituído pelo “coração não mão” da última vez. Ironicamente, o ponto final acendeu no grupo a vontade de fazerem música juntos. Olhar pra frente, fazer planos, prospectar a carreira ficou mais leve agora.
E amanhã será a oportunidade de os gaúchos se despedirem. Em dois shows no Opinião (às 18h e às 21h), com um deles já lotado, será o momento de relembrar os maiores sucessos e de ver pela última vez a lendária Cachorro Grande. “A história da banda é muito bonita. Então a gente achou uma maneira de se despedir à altura, uma maneira bonita, com todo mundo feliz”, contou Beto.
Os vinte anos de trajetória contaram com nove álbuns, um DVD e a abertura do show dos Rolling Stones, em 2016. “Foi o auge. Foi a coisa mais importante da nossa vida. Antes de pensar em ter banda, nós já éramos fãs. Beatles e Rolling Stones era o motivo da banda existir. Então, estar lá, dividindo o palco com os Stones foi demais!”, relembrou. Não precisa conhecer muito para perceber que a principal referência da Cachorro era a banda liderada por Mikk Jagger. Referência essa que nunca foi negada nem escondida pelo grupo e que seguirá embasando o trabalho de Beto, que lança, em duas semanas, seu trabalho solo.
Com três singles já disponíveis nas plataformas digitais, o novo disco tem sido, para Beto,uma oportunidade de fazer muita coisa diferente. “Acho hipócrita as pessoas que falam que têm orgulho de não se arrepender de nada. Eu me arrependo de milhares de coisas. Poderia ter tido mais carinho por algumas coisas, poderia ter valorizado mais outras. Poderia ter passado mais por cima e brigado menos em alguns momentos. Poderia ter sido menos ranzinza. Menos excessos na estrada, na turnê, nos estúdios…”, confidenciou o músico.
