Nasci em uma cidade onde se pede A la minuta de rês e onde servem rês comum no espeto corrido. Eu aguardava ansiosa por dezembro para confeccionar lanternas artesanais para participar da Laternenfest (uma festa que conta com tradicional desfile pelo bairro). Sabe as marcas Languiru e Elegê? São de lá. A Miss Brasil 2013 morou na cidade e foi minha amiga na infância. Na adolescência eu podia voltar do meu bar preferido a pé pra casa, de madrugada, porque era tudo perto e relativamente seguro. Cresci brincando de esconde-esconde na rua, jogando bola na rua e pulando Amarelinha na calçada de casa. Tinha grupos de teatro, dança, patinação, time de vôlei… dos quais fiz parte. Meus pais eram conhecidos na cidade pela qualidade das pizzas que vendiam e pelas delícias que faziam para vender no barzinho da escola (eu ajudava no recreio e sei, até hoje, que o aluno Jonas viria comprar uma Trakinas de morango – era sempre a mesma).
Na cidade onde eu nasci tem una lagoa lindíssima e ainda tem olarias. Tem gente que ainda faz sapato de pau e tem grupos de danças alemãs. Já foi conhecida, na região, como a Capital do Rock e tem uma colina que chamam de Morro da Bunda (realmente parece uma!). Na cidade tem uma ladeira, que já foi considerada a mais rápida do mundo para quem faz downhill, onde acontece um campeonato anual que recebe gente de todo o mundo. Tem gente fofoqueira, maldosa e de mente fechada (como em toda cidade pequena), mas é a cidade que me apresentou algumas das pessoas mais incríveis com quem já convivi.
Tem um monte de coisa em Teutônia, uma cidade do interior gaúcho, distante cerca de 100 km da capital, com pouco mais de 27 mil habitantes. Mas sabe o que Teutônia não tem? Árvore. “Cidade sem árvore, né?”, disse-me um colega porto-alegrense que visitou Teutônia recentemente. Confesso que fiquei um pouco surpresa quando o colega fez o comentário. Pensativa, concordei com ele: “é, não tem”. Fiquei com aquilo matutando na cabeça.
O tio Google me ajudou. Fiz uma busca pela cidade. Com a ajuda do mouse, arrastei o menino laranjinha e coloquei pra caminhar pelo bairro onde cresci, estudei e vivi a maior parte da minha vida.

Se, no verão, você caminhar de um ponto a outro da cidade, duvido não derreter. Sem sombrinha talvez você não suporte. Mas vamos lá… Ok. Existem exemplares nos terrenos das casas. E você pode até dizer que eu estou exagerando. Mas não há um plano de arborização. Me parece algo sem sentido, já que se trata de uma cidade do interior, que, teoricamente, preza pela qualidade de vida dos moradores. As árvores melhoram a qualidade do meio ambiente e, consequentemente, a qualidade de vida das pessoas. Na lista dos benefícios, bem-estar psicológico, sombra, diminuição da poluição sonora e auxílio na diminuição da temperatura.
A conversa com o colega me fez lembrar do caminho que eu fazia para a escola. Lembro de passar por dentro de uma praça, diariamente. Ah, como eu adorava a primavera. Olhava para o alto e ficava fascinada com os perfumes das flores no auge do desabroche, com alguns raios de sol passando por entre os galhos me obrigando a franzir o nariz. Logo depois, lembrei também de uma visita recente à cidade, em que eu pude passar pela mesma praça e sentir o mesmo perfume… Eu podia ter me sentido como se tivesse 11 anos novamente, não fosse a ausência de boa parte das árvores.
Algumas delas foram cortadas. Ouvi dizer que foi para afugentar atos ilícitos nas madrugadas… Afugenta mesmo passarinhos, borboletas e a possibilidade de criar boas lembranças nas mentes de crianças como um dia fui. As minhas árvores preferidas já não colorem o caminho para a escola. Que pena.

Adorei o teu texto Camila. Autêntico e verdadeiro. Um abraço!
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