
Dia tenso, cheio de afazeres e instabilidade emocional. Chego em casa e decido escolher algo no Netflix que não costumo assistir e que não me faça pensar muito. No destaque, um stand-up com a descrição “A comediante australiana Hannah Gadsby reinventa o stand-up, misturando piadas com revelações pessoais sobre gênero, sexualidade e problemas na infância”. Me intrigou, apesar de eu não ser simpatizante de apresentações de comédia. Dei o play, já que o que eu queria mesmo era relaxar. Mal sabia eu que minha mente ia explodir.
Explodiu porque, aparentemente, era só mais uma dessas falações que não me arrancam risos. A maioria das piadas realmente não me fizeram rir mas, à medida em que ela ia narrando a própria história, eu ia ficando cada vez mais intrigada e cada vez mais curiosa. Foi bom eu não ter lido sobre isso. Então.. se lendo até aqui te deu vontade de clicar na lupa e dar o play, pare já de ler. Conselho de amiga. Sério. Vaza. Vai ler a entrevista que eu fiz com a Denise Fraga ou vai ouvir meu papo com O Terno, ou com o Tim. Sério. Tchau pra ti.
Digo isso porque o show da Hannah tem um ponto em que se transforma em um dos testemunhos mais intensos que já vi. E não saber dessa virada intensificou a minha experiência. As falas dela me fizeram revisitar sensações que eu mesma já vivi e senti dores que não são minhas.
Imagine uma comediante falando para sua plateia sobre a sua intenção de deixar a comedia. Talvez não seja o melhor lugar para esse anúncio e ela mesma reconhece. A humorista diz que está cansada. Cansada.. e que não quer mais fazer o tipo de humor que sempre fez: o autodepreciativo. Por muito tempo essa foi a base de seus shows, mas agora dá um basta. “Você entende o que autodepreciação significa para alguém que já vive à margem? Não é humildade. É humilhação. Eu me rebaixo para poder falar, para pedir permissão para falar e eu não vou mais fazer isso. Nem comigo, nem com ninguém que se identifica comigo”, diz a comediante.
Alguns pontos muito específicos mexeram de forma especial comigo. Relatos sobre violência, sobre sentir-se fora dos padrões, sobre sensibilidades aguçadas, sobre como é duro o modelo seguido pela sociedade.
Hannah sabe conduzir incrivelmente o espetáculo para atingir o objetivo. Causa uma porção de sensações e dá um poderoso, relevante e eficiente recado. “É perigoso ser diferente”, ela diz. E mais perigoso ainda são as brincadeiras, os donos da famigerada “liberdade de expressão”, os defensores do “é só uma brincadeira”, que contribuem para que conceitos defasados, preconceituosos e tão nocivos continuem a fazer parte da nossa rotina.
