
Num primeiro momento, Claire Zahanassian parece apenas uma louca mulher em busca de vingança. Ela chama de justiça e a quer comprar. “É um luxo que me posso dar. Um bilhão para Güllen, se alguém matar Alfred Krank”, diz a personagem interpretada por Denise Fraga na peça A Volta da Velha Senhora – que esteve em cartaz no Theatro São Pedro até o sábado passado e que eu tive a honra de poder assistir -. Aos poucos, a gente entende que o texto de Friedrich Dürrenmatt fala, principalmente, sobre até que ponto uma sociedade está disposta a ir por dinheiro.
E o texto é repleto de críticas. À imprensa, à igreja, ao governo, à nossa construção social hipócrita, ao conceito de justiça e ao dinheiro. Não sou conhecedora da obra do autor, mas A visita da Velha Senhora me impressionou pela forma como os personagens são apresentados: sem tanta importância de personalidade, mas impactantes dentro do contexto. E talvez por isso, como a própria Denise Fraga me disse em entrevista, a peça consiga ser tão atemporal.
A formação do conceito de moralidade é tratado, na peça, como algo mutável. Num primeiro momento, a proposta de matar um membro da comunidade em troca de R$ 2 bilhões parece descabida. Porém, atos injustificáveis acabam ganhando justificativa conforme se transformam a conjuntura, as crenças e a convivência em grupo. Ninguém quer ser responsável pela morte de Krank, que, ao final, acaba sendo morto de qualquer maneira. E a questão da peça não é QUEM daquele grupo o matou, como perguntou uma das espectadoras durante o espetáculo. Não se trata aqui de Próxima Vítima ou Odete Roitmann. O enredo nos mostra que a moral é elástica e que, no fim das contas, a organização social te mata. Ou te faz matar.
E o que dizer sobre a atuação do elenco? Sensacional! Denise Fraga consegue dar o ar trágico e cômico que a personagem exige. Se mostra, além de excelente atriz, uma ótima cantora. A boa química com Tuca Andrada colore ainda mais o espetáculo e me fez até chorar em alguns momentos de conflito. Senti falta, apenas, de uma maior valorização do desenvolvimento das canções, executadas ao vivo no palco, mas nada que tivesse tirado o brilho da peça.
Confere, abaixo, o bate-papo que tive com Denise Fraga. A entrevista foi ao ar no Guaíba Fim de Semana do dia 7 de julho, na Rádio Guaíba.
Camila Diesel: “Como é estar em Porto Alegre, estar de volta à capital gaúcha e se apresentar no Theatro São Pedro?”
Denise Fraga: “Tenho muito carinho por esse lugar. Essa é a oitava peça que faço em Porto Alegre. É um lugar que a gente já conta de vir. Estrear uma peça sem vir pra Porto Alegre pra mim parece que não dá. E eu tenho muito carinho pelo Theatro. E a figura da dona Eva (Sopher) na nossa vida… quem conheceu dona Eva não esquece. Ela é realmente um símbolo, uma referência, um emblema pra todo mundo. Porque quando eu penso, às vezes, em esmorecer, quando eu quero desistir de alguma coisa, ela sempre me vem à cabeça. É um exemplo de obstinação, de amor pelo teatro e fazer teatro não é uma coisa que você possa fazer sem resistência (risos). É preciso resistir. E eu fico muito feliz de estar de volta, ainda mais com essa peça que foi um sucesso. Eu acho que talvez uma das grande funções do teatro, Camila, seja dar a palavra, dar a voz a nossa angústia. Eu acho que hoje, dentro dessa nossa vida virtual onde todos estamos com a nossa atenção tão pulverizada e cada um com a sua telinha, o evento teatral é uma coisa muito preciosa que propõe um mergulho ali de duas horas, com todo mundo ali presente, um pacto de silêncio. Pra todos juntos mergulharmos por duas horas naquela história que vai realmente nos conectar com alguma coisa. Vamos estar todos juntos, conectados ao mesmo tempo. É um mergulho de reflexão. Eu acho que isso tem sido uma tônica nas minhas escolhas. A coisa que eu mais gosto é quando eu consigo divertir alguém e ao mesmo tempo que eu faco essa pessoa pensar – e o Dürrenmatt é um autor que me deixou arrepiada nesse sentido porque ele consegue escrever uma em timming cômico. Consegue falar de coisas muito importantes, muito profundas e até terríveis de uma forma engraçada, onde a pessoa ao rir se reconhece. Ao rir, vem a lucidez. Então isso é um grande prazer… essa reflexão, esse reconhecimento de si mesmo através do teatro. Às vezes eu me sinto um pouco assim: essa pessoa que carrega um espelho na beira do palco e vira esse espelho pra plateia e fala ‘olha como nós somos ridículos’. E somos mesmo, né?”
Camila: “A Visita da Velha Senhora faz parte de uma trilogia com duas peças do Bertolt Brecht, que tu, inclusive, já se apresentou com essas duas peças aqui em Porto Alegre. Como é fazer parte disso?”
Denise: “Quando eu fiz essas peças eu não pensava nessa trilogia. O que a gente às vezes fala que é uma trilogia, é porque é incrível como essas peças têm a ver uma com a outra. E eu acho que tudo se origina dessa angústia que a gente tem nessa questão ‘o que acontece com a ética, diante do poder econômico? A gente precisa mesmo se distanciar tanto dos nossos princípios em nome do ganha pão?’. Eu acho que a gente anda justificando o injustificável por dinheiro. Eu entendo que todos nós tenhamos que nos vender, mas também chega uma hora que a você tem que ver. O próprio Brecht, que é o autor do Galileu Galilei e do Alma Boa de Setsuan, fala ‘que ética que resiste à fome?’. Eu acho que, realmente, quando seus filhos estão passando fome, sei lá se você não pega um saco de feijão no supermercado… Mas a que fome que a gente tá se referindo? A gente tem visto a ética ser derretida em praça pública, sem vergonha nenhuma. Inclusive agora eles nem sem escondem. Ao contrário. Eles usam discursos que parecem justificar os atos. Então, a gente anda, na internet principalmente, com muitos discursos compartilhados que a gente tem até que ter muito cuidado. Porque tem gente que nem concorda com aquilo, e com o show de retórica que a gente vê, acaba compartilhando absurdos que justificam o injustificável, que tomam por justiça algo que, na verdade, é vingança. E a gente tá tendo uma grande crise, eu acho, afetiva mesmo. O que tá em questão é o nosso afeto. Essa palavra afetar o outro, compreender a compaixão está em crise. A generosidade está em crise. E eu não tô falando isso assim ‘ah, o amor está em crise’. Tem uma frase na peça, que é na boca do professor que fala assim: ‘é a liberdade que está em jogo quando são feridos os preceitos do amor ao próximo’. Eu adoro essa frase porque olha o que ele fala que está em jogo: é a liberdade. A nossa liberdade. E a nossa felicidade, portanto, está em jogo. O Dürrenmatt chama de manicômio labiríntico esse lugar que a gente inventou pra viver, essa sociedade onde o que vale é o que vende, onde a gente justifica absurdos em nome do poder econômico. E ele diz que agora não tem mais culpados nem inocentes, que estamos todos engendrados naquilo que criamos. Então não há mais saída a não ser olhar pra isso e rir. Por isso que ele diz que a comédia é a expressão do desespero. Eu, na verdade, acho ele um pouco pessimista. Eu acho que há saída sim e a saída são as revoluções individuais, as atitudes cotidianas. No nosso dia a dia a gente acreditar que nós somos donos da história e que nós podemos pôr a mão na massa da nossa história. Brecht, que é o autor do Galileu e do Alma boa, acredita nessa mudança pelo teatro. Então, de uma certa maneira, a gente usa a peça do Dürrenmatt, que é incrível, que é divertidíssima, que faz a gente rir daquilo que parece imutável. Até a gente vê na peça um sinal mais brechtiano, que a gente convida o público a mudar. E eu acredito que muita gente que vai ver a peça pode chegar diferente no escritório na segunda-feira. Porque a peça diverte e faz você voltar pra casa com sua trouxinha de reflexão. Então eu fico muito feliz com isso.”
Camila: “Tu falavas sobre o poder do teatro e eu fico realmente emocionada e encantada com o poder que o teatro tem, que a arte tem, de fazer as pessoas pensarem, refletirem e reconsiderarem alguns conceitos apesar de que a arte nem sempre é percebida como algo que possa mobilizar as pessoas a pensar. Essa peça escrita em 1956 – e tu me narrando tudo isso – continua a ter relevância hoje. Então, tu achas que essa questão toda do ser humano é algo cíclico ou que às vezes parece que a gente não aprendeu nada ainda?”
Denise: “Ótima a sua pergunta, Camila. Eu acho que ela revisita um antigo dilema, uma coisa que talvez nunca tenha solução, que talvez faz parte do humano, que é essa crise do valor moral diante do dinheiro, né? Mas, eu quero montar essa peça há quatro anos e ela sempre será atual. Foi montada no mundo inteiro. É um clássico. Um clássico de uma popularidade absurda. Atual ela sempre será, mas o que aconteceu é que ela foi ficando assustadoramente propícia, ela parece que foi encomendada na semana passada pra gente fazer. Tem dias que, dependendo da notícia do jornal, eu sinto que tem risadas na plateia do público achando que a gente pôs um caco, que foi um improviso. E não. A gente não tem improviso nenhum. São todas as palavras do Dürrenmatt. E é muito incrível como a peça se encaixa no momento atual do país. Eu fico ao mesmo tempo feliz, de estar podendo falar sobre isso nessa hora e assustada como a cada dia ela fica própria, como a peça tem uma propriedade necessária. E isso explica até o sucesso da peça porque ela fala de alguma coisa que está na cabeça de todo mundo, de uma angústia coletiva que a gente tá vivendo. A historinha básica é essa mulher que chega na cidade natal. A cidade tá falida, arruinada. Todos ficam puxando o saco dela achando que ela vai dar algum dinheiro pra salvar a cidade da falência. No banquete de boas vindas ela diz que dará um bilhão (de reais) pra cidade contanto que matem Alfred Krank, que é o cara que a sacaneou na juventude, que a abandonou grávida quando ela tinha 17 anos pra casar com uma mocinha rica da cidade. E aí todos rejeitam essa proposta absurda, mas ela fala ‘não tem problema. Eu posso esperar’. E se hospeda no hotel da praça. Esse autor genial desfila uma série de cenas hilárias onde você vai vendo o que vai acontecendo com essa cidade na iminência desse bilhão. Isso cria uma salvação de todos, ela salvará todo mundo, dará dinheiro pra todo mundo. Então essa possibilidade começa a ser avaliada por todo mundo, inclusive pela plateia. É muito interessante. É um texto genial. Cada dia esse texto abre mais ramos de reflexão, mesmo pra nós atores.”
