“Eu fiz o meu melhor, mas não dá mais / Hoje eu morri por dentro”, lamenta Tim Bernardes em “Não”, sétima faixa e momento de clímax do álbum Recomeçar (2017). O disco é o primeiro solo do artista paulistano que já tem o nome reconhecido por ser o frontman da banda O Terno. Com um clima intimista, Tim convida o ouvinte a entrar numa verdadeira jornada de emoções e contradições de sentimentos.
A sensação é de imersão em uma história completa, em treze capítulos. História essa que perpassa a ruptura de laços e culmina na sensível e introspectiva canção que dá nome ao disco: “O que começa terá seu final / E isso é normal / Isso é normal / A dor do fim vem pra purificar / Recomeçar”. Soa como uma verdadeira esperança de dias melhores e a crença na possibilidade de um reinício.
Impossível não remeter a estrutura musical à d’O Terno e provavelmente os fãs da banda tenham se tornado fãs do músico Tim Bernardes. Porém, Recomeçar se destacou porque é nitidamente um recorte aprofundado e pessoal de Tim, que depois de três discos com sua banda – e agora com uma certa distância daquele que ele mesmo era quando escreveu as canções -, tem encarado o público de frente e sozinho em um palco. O músico se apresentou em junho na capital dos gaúchos, um dia antes de tocar com a banda completa, no Theatro São Pedro. Além de entrevistar a banda (já publicada aqui no blog), eu bati um papo com esse cara incrível. Confira!
Camila Diesel: “Tim, tu tens te apresentado pelo país a fora com o teu trabalho solo e com a banda também. Como é ficar entre esses dois repertórios?”
Tim Bernardes: “É bem legal. É bem interessante porque embora o repertório seja todo autoral meu, são faces diferentes. O show d’O Terno tem uma coisa mais expansiva. É um show mais animado, mais pra fora, extrovertido. E o meu show solo é um show mais intimista, que é só eu mesmo no palco. E esse show d’O Terno a gente tá com um trio de sopros. Então, é bom fazer as duas coisas porque tem o melhor dos dois mundos, de tocar com os amigos e com banda, e a coisa boa também de tocar sozinho e a dinâmica, o silêncio. Tá sendo uma experiência legal.”
Camila: E por que tu sentiu essa necessidade de gravar um disco teu, sendo que tu é compositor também e compõe para O Terno?”
Tim: “Não foi nem exatamente uma necessidade gravar um disco meu. Foi necessidade gravar um disco que eu tinha feito já na cabeça. E esse era um disco que não era um disco com banda. Eu já tinha essas músicas que vieram a ser o Recomeçar e era um disco inteiro na minha cabeça, que já se entrelaçava. Uma música passava pela outra, os assuntos tinham a ver, e os arranjos de orquestra que eu imaginava, que saíam numa música e apareciam na outra. Então eu tinha esse disco na cabeça. E ele não ia ser com O Terno e era uma coisa muito íntima. Eu poderia inventar um outro nome de um projeto, mas fazia muito sentido ser o meu nome também. Acho que foi um momento em que eu me senti à vontade também para me colocar como compositor, autor e dar a cara a tapa, assim, exposto mesmo.”
Camila: “A impressão que se tem ao ouvir o disco todo, do início ao fim, é de que ele conta uma história. Essa realmente foi a tua intenção?”
Tim: “Sim. Isso era uma coisa que eu nunca tinha feito. No Terno a gente tem muitos contrastes na lista das músicas dos discos. Tem uma música agitada, outra mais calma, uma que é engraçada, uma que é profunda. A gente gosta disso. De buscar mudanças e contrastes. E aí nesse meu disco, o Recomeçar, pela primeira vez eu juntei todas as músicas que eram de um assunto só e de um clima. Então, eu não tava preocupado se as pessoas iam misturar uma música com a outra na cabeça. Eu queria que fosse tudo uma névoa e que parecesse uma música de 40 minutos. Quando eu fui fazer a ordem também. Eu busquei que fizesse um sentido, que se entrelaçasse, que a pessoa pudesse imaginar uma história ali. Mas também não quis ser muito literal e colocar músicas que se encaixassem muito uma depois da outra pra não formar uma historinha exatamente. Queria que desse um clima de uma situação.”
Camila: Nas canções, tu falas sobre ti e tuas histórias pessoais?
Tim: “Sim. Basicamente, sim. Reflexões, sentimentos, desilusões, ilusões, reflexões íntimas, solitárias. Ele é bem fiel ao que eu tava pensando quando eu fui compondo as músicas. Muitas das músicas eu compus pra mim, não ia nem mostrar, nem lançar. Depois de um tempo que eu senti que era legal soltar. É um disco bem pessoal meu.”
Camila: E como é estar no palco cantando pra tanta gente e sabendo que essas músicas são tão íntimas pra ti e que acabam fazendo sentido pros teus fãs?
Tim: “É legal. Porque eu fiz essas canções ao longo de alguns anos. Então elas tem uma distância agora que eu não fico constrangido de tá me expondo muito, sabe? Elas estão naturais pra mim, eu sinto a verdade da coisa, mas eu também tenho a vontade de cantar. Porque eu sinto que, elas falando muito claramente quase como uma lupa num sentimento interno, ela acaba fazendo sentido pro público como um indivíduo. As pessoas podem se identificar com situações que eu esteja cantando ali. E acho que depois do Melhor do Que Parece também, das turnês, e tudo mais, eu fiquei mais tranquilo e confiante de receber uma recepção calorosa do público com essas músicas mais emocionais. Eu tava com vontade mesmo de fazer isso.”
Camila: Os fãs d’O Terno são necessariamente os fãs do Tim Bernardes?
Tim: “Acho que tem uma grande intersecção. É muito em comum. Mas tem algumas diferenças, talvez. Eu sinto que o Recomeçar, até por ser músicas de amor e assuntos que são bem universais e íntimos ao mesmo tempo, ele talvez seja um pouco mais abrangente. O Terno tem uma coisa de geração que eu acho muito legal, que é de a gente ter uma coisa estética e essa bordagem dos clipes mais doidos e tal.. tem um pouco do que é jovem nosso, sabe? Mas mesmo no Terno, o público é concentrado em gente mais jovem, mas tem criança, tem velho, tem gente de todas idades. O que eu sinto é isso. Que tem um caminho emocional, que tem em um pedaço d’O Terno que o Recomeçar vai a fundo nessa parte.”
Camila: O Terno recebeu vários prêmios, ficou nos topos das principais listas do país. Assim como teu disco, que dividiu pódio até com Chico Buarque. Como tu recebes isso? Considera que está em uma nova fase da carreira? Ou trata isso como uma coisa normal?
Tim: “Normal não é… (risos) É legal. É muito legal. Eu fico muito feliz. Tipo, eu acho que estou sim numa nova fase. Assim como do segundo pro terceiro disco d’O Terno. Essa fase agora eu acho que consolida uma coisa que eu vim construindo também como compositor, autor, artista, sei lá… Acho que faz muito sentido o Recomeçar sair como que saiu depois do Melhor do Que Parece, que também foi um disco que a gente conseguiu atingir um nível que eu acho muito legal… Tô me sentindo mais sólido, de alguma forma. E a geração também, a cena. Porque a gente veio crescendo num momento em que a internet tava se estruturando como uma possibilidade onde a cena ia se desenvolver. Agora a internet já não é tão mais uma novidade. As bandas e os artistas tão conseguindo chegar nas pessoas. E os recursos pra gravar… as pessoas estão conseguindo chegar nos discos que as pessoas tão imaginando mesmo. Então eu sinto que tá mais maduro, em composição, sonoridade.. e é isso… acho que o bagulho tá ficando bom… (risos)”
